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| PREFACIO
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A Nenzinha (Maria Bittencourt)
me surpreendeu com esta maravilhosa biografia do nosso Juquinha
(José Vitorio de Oliveira Bittencourt Júnior).
Eu sabia que ela tinha cultura, mas
não esperava que fosse capaz de realizar um trabalho tão perfeito,
como esta obra literária — a vida do Juquinha e a sua personalidade
retratada com tanta beleza e felicidade.
Gostei muito de ser convidado a escrever
umas linhas nesta obra que retraía aquele que foi um primo,
meu sogro e meu amigo. Um exemplo de homem digno de reputação
ilibada.
O Juquinha, Moreninho, Carlos Cortes,
João Brasil. Mocinho, Janjão, Jair, Júlio, Mário, Jaime,
Morgadinho e muitos outros professores e diretores
de colégios secundários, criados na 4a geração de nossa família,
representam para nós da 5a e demais gerações da Maravilha tudo
que somos hoje, toda cultura que passamos a desfrutar e todas
as possibilidades de progresso que obtivemos.
Sem eles continuaríamos a ser simples
lavradores ou pequenos sitiantes em Macuco.
A Nenzinha foi de uma felicidade extraordinária
com seu livro. Não só retratou com fidelidade aquele
que foi o expoente máximo do ramo de Nhonhõ e Alice,
como também enriqueceu nossa cultura e força da raça Bittencourt.
Os nossos descendentes saberão valorizar
esta obra e ter como exemplo de vida aquele que tudo
fez por nós engrandecendo a família.
Nasceu pobre e morreu pobre realizando
tanto para os outros e nada para si.
Foi feliz? Se foi! Adorava a sua Sonora,
seus irmãos, seus queridos pais, seus filhos e seus netos.
Tive a felicidade de ter o Juquinha
e a Sonora morando em minha casa nos últimos anos de vida.
Foi difícil trazê-los de S. Gonçalo
para Niterói, mas a minha qualidade de médico e o nosso desejo
de tê-los junto a nós, prevaleceram.
Nossa casa ficou mais alegre porque
nos foi possvel ajudá-los na velhice e receber para meus filhos
e para nós aquele amor que vem dos velhos para os mais moços.
Viveram felizes também seus últimos
anos pois tinham a presença constante dos filhos, netos, irmãos
e todos que amavam com carinho.
Só os perdemos quando Deus quis tirá-los
de nossa companhia.
Nenzinha, sua obra engrandeceu
ainda mais a nossa família!
Obrigado em nome de toda União Maravilha.
Altivar Cortes Pires
Presidente do Conselho do Clube da
União Maravilha
José Victório de Oliveira Bittencourt
Júnior —Juquinha.
O mais velho de onze irmãos, era de
uma inteligência notável que o fez brilhar como Jornalista,
professor e poeta. Mas o seu brilho maior foi através do seu
caráter cristalino, seu elevado senso de Justiça e sobretudo
do amor que dedicou a toda sua família, ajudando e amparando
a todos enquanto pode.
— Era ele o meu querido e saudoso
Pai.
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Certa vez, Lourdes e Alice
pediram-me que lhes contasse o início da vida de seu pai, uma
vez que convivi com ele desde o meu nascimento. Por isso, resolvi
escrever estas linhas que apesar da simplicidade de linguagem,
expressam toda a admiração que sinto pelo meu irmão e
padrinho — Juquinha.
Dedico este modesto livrinho
a seus filhos: José, Paulo (in memorian), Lourdes, Dulce
e Alice. |
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| NOSSA ORIGEM |
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Lá pelo meado de 1820, procedentes
do interior de Minas Gerais, precisamente das redondezas de
São José d'EI Rei (lugar que já não existe mais) Francisco José
de Oliveira, e Maria Genoveva da Purificação Bittencourt
e seus filhos, fixaram residência numa aprazível várzea às margens
do Ribeirão Dourado.
Adquiriram aquelas terras férteis, cobertas
de matas virgens com cerca de 400 alqueires onde formariam uma
grande fazenda e criariam tranquilamente seus filhos: Maria
Justina, Maria Francisca, José Victorio (padrinho,
nosso avô), João Baptista, Joaquim e Manoel.
Francisco José viveu poucos anos, não
chegando a concretizar seus sonhos.
Isso porque, algum tempo depois de se
instalarem, onde hoje é o Goiabal (Clube União Maravilha)
resolveu regressar a Minas Gerais afim de reaver seus bens ou
seja, várias barras de ouro que lá havia deixado enterradas.
Nessa viagem era acompanhado por um escravo, levando ainda cinco
animais de carga. Mas ao regressar foi atacado por ladrões,
roubado e morto.
Essa fortuna foi adquirida em garimpos
de suas terras, e nesss labor empregou grande parte de sua vida.
Foi por perseguição da Corte, que arrecadava
a maior parte do ouro do garimpo e pela derrama (cobrança de
impostos), que resolveu com a família, escravos, serviçais,
mudar-se para a então província do Rio de Janeiro.
O escravo que o acompanhava conseguiu
fugir e meses depois chegou à fazenda, magro, aicuabrado, faminto,
contando o que havia acontecido com o seu senhor.
Maria Genoveva (a vovó do Goiabal),
assumiu sozinha toda a responsabilidade da criação dos filhos
e dos trabalhos da fazenda.
Goiabal, como passou a chamar-se por
causa da grande quantidade de goiabeiras nativas que
ali existia, ficou reduzido a poucos alqueires, pela desonestidade
de fazendeiros vizinhos tão poderosos quanto inescrupulosos.
Essa é a história de nossos bisavós.
Foi-me transmitida por papai — José
Victorio de Oliveira Bittencourt — Nhonhô.
O padrinho, nosso avô, foi o terceiro
filho do casal Francisco José de Oliveira e Maria Genoveva
da Purificação Bittencourt (a vovó do Goiabal). Casou-se
com uma mineira de São Sebastião da Estrela, fazenda da Água
Limpa, Felismina Carvalho Coutinho.
E desse casal originou-se essa grande
família maravilha. |
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| NHONHÔ - ALICE |
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José Victorio de Oliveira Bittencourt
papai nasceu em 30 de outubro de 1858, em Minas
Gerais, fazenda da Água Limpa, São Sebastião
da Estrela, Minas Gerais.
Veio da casa dos seus avós maternos
com apenas dois meses de idade.
Cresceu na fazenda da Maravilha, pertencente
aos seus pais no Estado do Rio, então quarto distrito
de Cantagalo. Amou tanto essas terras que sua alma parecia
misturar-se aos encantos de toda a natureza, ao rio, aos cafezais
que cobriam de verde escuro todos os morros.
Foi o primeiro filho varão do
casal Padrinho e Dindinha. Por ser o mais velho, aos dezoito
anos assumiu toda a direção da fazenda.
Foi o braço direito do pai. Praticamente ajudou a criar
os irmãos mais novos.
Apesar de tanta responsabilidade recair
sobre seus ombros tão jovens, era assíduo frequentador
de festas, bailes e, tinha grande pendor musical. Estudou música
e teoria com bons professores das localidades próximas.
Organizou a banda da Maravilha, da qual faziam parte escravos,
empregados, amigos e seu irmão Chico (Francisco
Victorio Bittencourt).
A banda não só alegrava
as festas da Maravilha, como as das adjacências, com alegres
dobrados, polkas e valsas de sua composição.
Lembro-me com saudades, quando já
muito velhinho ele as assobiava, marcando o compasso com os
pés.
Já havia completado vinte anos
e apesar da insistência dos pais e das irmãs casadas,
não se resolvia a abandonar a cômoda vida de solteiro.
"Quando aparecer a moça
com quem devo me casar, eu o farei, estejam certos", dizia
sempre.
Um dia viajou à Minas Gerais
para trazer as irmãs Francisca (Titã) e Antonia
(Tonha) afim de participarem da festa do casamento da irmã
Laura (Laínha).
Titã e Tonha eram casadas com
Miguel e António Ponte, proprietários de terras
no município de Cataguases. Não muito distante
havia outra propriedade, a do Sr. Francisco Teixeira de Siqueira
e sua esposa Julia Máxima dos Reis Siqueira de cuja família
eram muito amigos. Por isso aproveitando a fresca brisa de uma
manhã de domingo, decidiram apresentar o irmão
que os visitava, à família amiga. Mas na verdade,
o que pretendiam mesmo era que Nhonhô (como era
chamado carinhosamente por todos) conhecesse as filhas do Sr.
Francisco e D. Júlia.
Eram duas graciosas e prendadas moreninhas,
Alice e Clarinha de treze e quinze anos.
Foram recebidos com muita alegria.
Apreciaram o delicioso almoço e a sobremesa feita pelas
meninas.
A tardinha despediram-se, com a promessa
de que em breve receberiam a visita dos amigos, antes da partida
para a Maravilha.
Ainda no caminho de volta, Nhonhô
muito eufórico disse às irmãs:
Olha, vou me casar com aquela
menina.
Clarinha? perguntaram,
pois era a mais velha.
Não, a Alice. Só
se ela não quiser!
Riram de sua escolha.
Alice tinha um rostinho lindo
e travesso, olhos grandes, astanhos e irrequietos, um sorriso
brejeiro mostrando seus dentes perfeitos e branquinhos.
Usava duas graciosas tranças arrematadas com laços
de fitas coloridas.
Mas é tão pequenina,
tão jovem, diziam as irmãs.
Ora, eu espero.
Respondeu às ponderações,
resoluto.
Aquele amor tão puro, tão
grande e espontâneo, foi também correspondido com
a mesma intensidade pela jovem e meiga Alice.
D. Júlia e o Sr. Teixeira viam
com muita simpatia aquela união. Não só
porque já estimavam muito os vizinhos de terra, como
pelas belas qualidades que, em palestras, Nhonhô deixou
transparecer. Era alegre, trabalhador, sensato, caráter
firme. Seus inúmeros predicados eram justamente
a razão de possuir tantos amigos.
Mas Nhonhô já não
era o mesmo, comentava o pessoal da casa. Andava distraído
e negligenciando os serviços da fazenda, o que não
era do seu feitio. Com frequência viajava para Minas,
afim de matar as saudades da amada.
Os pais de Alice haviam resolvido que
se casariam, quando a noivinha tivesse maior idade, e
portanto em condições de assumir as grandes
responsabilidades de mãe de família.
Porém Dindinha, vendo a intranquilidade
do filho, decidiu ir a Minas, para convencer os futuros sogros
a permitir que se antecipasse o casamento.
Marcaram então para a realização
das bodas o dia 20 de outubro de 1888. Alice nessa época
teria completado 14 anos.
Foi um lindo casamento!
Alice mais parecia uma virgenzinha
na primeira comunhão, do que uma noiva indo ao altar.
O vestido muito mimoso de "cassa
suíça" entremeado de "rendas
valencianas" em delicados babados cobriam os pequeninos
pés. Esses eram calçados de sapatos de fina pelica
branca ornado de mimosas flores de laranjeira. Também
de flores de laranjeira era a grinalda que cingia sua fronte,
apoiando o farto e longo véu.
Nhonhô, alto, louro e muito elegante.
Seus olhos azuis retratavam o céu que lhe ia na alma.
O fraque bem talhado lhe caía muito bem, assim como as
polainas claras.
Formavam um distinto par, foi a opinião de todos que
assistiam à cerimónia.
Era o dia 20 de outubro de 1888.
A comitiva composta de parentes que
partiu da fazenda da Maravilha à Minas, para assistir
ao casamento, na volta foi acrescida pelos parentes de Alice
que acompanharam os noivos ao seu novo lar.
Depois da longa viagem, chegou à
Maravilha que a esperava em festa. Os festejos duraram uma semana:
música, flores, fogos de artifício, além
de muitos acepipes e doces. Isso, não só na casa
grande da fazenda, como nas senzalas, onde os escravos, que
apesar de já estarem libertos há 2 meses, dançavam
o jongo e o cateretê em homenagem a Nhonhô e a
sinhazinha Alice.
Dessa abençoada união
nasceram 12 filhos: José Victorio (Juquinha),
Antonia (Nené), Júlio, Sebastião
(Inhozinho), Mário, Maria da Conceição
(Vevelha), Jair, Maria da Conceição (Lolô),
Sebastião (Tatão), Maria (Nenzinha),
Jayme e Daura.
E podemos terminar este relato dizendo
como nos contos de fadas... e foram felizes para sempre. Ou
ainda plagiando o poeta.
mais amariam se não fosse
para tão grande amor, tão curta vida (50
anos).
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| NASCIMENTO DE Juquinha - José Victorio de Oliveira
Bitencourt Jr |
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A noite ia alta, o silêncio
usual do casarão, antigo sobrado, sede da fazenda da
Maravilha, havia sido quebrado. A família, reunida na
sala de jantar, orava, aguardando com ansiedade o tão
esperado chorinho do nené.
O futuro pai, aflito, entrava no quarto
repetidas vezes, logo se afastando, alegando não suportar
o sofrimento de sua querida Alice.
Padrinho e Dindinha, com palavras
ternas procuravam encorajar o filho querido.
As irmãs, Dedé,
Fia, Laínha e Zina, preocupadas, imploravam
a Deus para que tudo terminasse bem.
Faustina, Clara e Sabina, antigas e
dedicadas escravas da casa. pediam a Nossa Senhora que olhasse
pela "menina de Nhonhô".
Sinhá Maria Eugenia, mulher corajosa,
que já havia perdido a conta de quantos partos fizera,
falava, demonstrando uma pontinha de orgulho, que havia aparado
os últimos filhos de Dindinha e muitos netos com grande
sucesso. E mais uma vez provaria sua habilidade como parteira
da família.
E não tardou para que essa genial
mulher, abrisse a porta do quarto e anunciasse:
É um lindo menino, a
cara da mate.
E ele confirmou com o chorinho característico
dos recém-nascidos.
Nhonhô num gesto de carinho abraçou
os pais, chorando e rindo ao mesmo tempo, dominado por forte
emoção.
Após os primeiros cuidados, nos
braços do pai, o bebé foi levado para junto da
mamãe que nesse momento sentia-se envolvida pelo mais
sublime dos sentimentos, o amor materno.
E num ambiente mesclado de esperança
e alegria acolheram aquele que na pia batismal receberia
o nome tradicional da família.
José Victorio de Oliveira
Bittencourt, por ser o primeiro filho, segundo um costume antigo,
teria por padrinhos os avós paternos, Padrinho e Dindinha.
Estava raiando o dia 23 de agosto de
1889. |
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| VARGEM ALEGRE |
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Papai comprara dos tios, Joaquim,
Maria Jusuina, e Francisca (tia Chica), herdeiros
da Vovó do Goiabal (nossa bisavó), alguns alqueires de terra,
formando um sítio, ao qual mamas deu o nome de Vargem Alegre.
Quando ali chegaram, nada mais havia
além de alguns pés de café e velhas goiabeiras.
Graças ao intensivo trabalho e a proteção
de Deus, em pouco tempo tudo foi se modificando para melhor.
Logo os cafezais cobriam os morros,
enquanto as lavouras de cana se estendiam pelas várzeas,
tornando-as verdes, como verdes eram as esperanças que brotavam
em seus jovens corações.
Um modesto engenho foi montado para
fabricar rapadura e aguardente.
Banhada pelo rio Dourado, a Várzea ainda
era beneficiada por um borbulhante riacho de água cristalina
que descia das matas próximas.
O movimento do sítio era grande. Bem
cedo já estavam os empregados de enxada ao ombro, dirigindo-se
para a lavoura. No próprio local de trabalho faziam as refeições,
que eram preparadas em nossa casa.
Mamãe, embora fosse ainda muito jovem,
assumiu com muita garra e força de vontade o lugar de dona de
casa, o que fez sempre com muita habilidade.
Nos últimos anos de vida de nossa inesquecível
mãe, ela ainda se lembrava com nostalgia do seu jardim que começava
no "oitão" da casa, do roseiral que floria o ano todo, dos seus
jasmineiros, sempre coberto de flores, e por fim das sempre-vivas
de variadas cores.
Os coqueiros da Baía, enfileirados
ao longo do caminho até a estrada principal, emprestavam à
Vargem Alegre uma beleza indiscutível.
O jardim e o pomar eram cuidados pelo
bondoso tio João.
Das alegres manhas do sítio, ela jamais
se esqueceu, referindo-se com saudades, das aves que em revoada,
enchiam de alegria o céu azul dourado, anunciando o nascer do
dia.
Era assim a Vargem Alegre de 1889 |
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| SUA INFÂNCIA |
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No final do ano de 1889, nossos pais
mudaram-se do sobrado, onde Juquinhanascera, residência
dos seus avós paternos, Padrinhos e Dindinha.
Repletos
de felicidade chegaram à Vargem Alegre.
Embora com poucos recursos financeiros,
nos braços levavam o grande tesouro de suas vidas, o
filhinho de apenas dois meses de idade. E que ali, cercado de
muito amor, passaria os seus primeiros anos de vida.
Dos irmãos foi o único
que teve o privilégio de ser embalado nos braços
da Vovó do Goiabal, Madrinha, sua bisavó
paterna, que nessa época já se encontrava bastante
idosa, falecendo em princípios de 1890, com a avançada
idade de noventa e nove anos e seis meses (palavras de papai).
Yote ou Juquinha, como era chamado
na infância, foi uma criança saudável e
alegre. Aos três anos ainda dormia o primeiro sono nos
braços de papai que o embalava assoviando e dançando
uma de suas valsas ou mazurcas. E assim conseguia adormecer
o filho querido.
Entretanto, se dormia cedo, mais cedo
estava de pé, dando início às suas atividades,
ou seja, às travessuras próprias de sua idade.
Muitas vezes necessitou do auxílio de mamãe para
descer das árvores, onde trepava até as grimpas.
Armava alçapões, com a ajuda do amigo Jucá
Teodoro. Ainda outras peraltices ele as fazia, como acompanhar
os primos maiores nos banhos no Ribeirão Dourados, às
escondidas de mamâe.
Certa vez papai o presenteou com uma
poldra, à qual ele deu o nome de Bainha. Por sua mansidão
foi considerada mais que um animal comum. Juquinha, bem pequeno,
em seu lombo galopava pelo sítio cheio de entusiasmo.
Ela o acompanhou por toda sua infância e também
os irmãos que vieram em seguida. Entre suas crias destacou-se
o Oceano, um lindo cavalo mestiço, orgulho da criançada.
Essa égua, motivo de tantas
recordações da meninice dos nossos irmãos,
morreu na fazenda do Farol, onde morávamos em 1924. Foi
um dia de tristeza para todos nós, principalmente para
papai, mamãe e Juquinha que viam nesse animal um relicário
de lembranças.
Entre seus brinquedos preferidos, um
nunca foi esquecido. Era um carrinho puxado por duas juntas
de cabrito, uma perfeita miniatura do carro de boi de papai.
Foi um presente de mamãe, em um dos seus aniversários.
Nesse clima de tanto encanto, tanto
amor Juquinha passou seus primeiros anos, descuidados e felizes
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| SEUS APEGOS DE INFÂNCIA |
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Certa vez alguém disse:
Coração sem amor é como um campo árido,
sem uma flor que nele brote a o amenize.
Juquinha, foi o oposto. Em seu coração floriram
os
mais belos sentimentos de amor.
Entre seus inúmeros amigos de
infância, muitos se destacaram pelo carinho e ternura
que a ele dedicaram; entre eles Jucá Teodoro e Norma,
sua babá, ambos criados em nossa casa, e que ali se casaram.
Juquinha e Nenô balizaram suas
filhas Nancy e Sonora.
Em 1946 esse casal nos visitou, dando e mamãe uma grande
satisfação.
Entre inúmeras lembranças de fatos ocorridos na
meninice de Juquinha e Nené, Jucá recordou-se
da seguinte passagem:
"Certo dia, na horta, um bem-te-vi
fez seu ninho num viçoso pé de arruda.
As crianças, como era natural,
logo o descobriram. E dali em diante a pobre ave não
teve mais sossego. Vai-e-vém lá estavam os dois
olhando o ninho. Porém, Dindinha Alice na tentativa
de salvar os ovos que a avezinha já estava chocando,
recomendou-lhes que não tocassem no ninho, pois se assim
o fizessem os ovos se transformariam em cobras.
Mas, passado alguns dias, lá
foram novamente na esperança de encontrarem os tão
desejados filhotes. Todavia em lugar das avezinhas estavam dois
monstrinhos.
Talvez sejam cobras disseram
eles e apavorados saíram chamando por Dindinha
Alice, que assustada, não sabia a que atribuir a tanta
gritaria. Mas lá chegando tudo se esclareceu.
Os passarinhos ainda implumes, com
os bicos abertos, exibiam as línguas vermelhas, piando
desesperadamente a espera do alimento".
Ao terminar sua história verídica.
Jucá com um ligeiro sorriso, tentava esconder da Dindinha
Alice a emoção e a saudade daquele tempo
tão distante. E como se falasse só para si, pronunciou
baixinho:
Aqueles meus compadres são papa muito fina. E
uma lágrima rolou dos seus olhos já tão
apagados!
Os companheiros de Juquinha nas brincadeiras
da Vargem Alegre, eram os primos Zinho, embora bem mais velho
que ele. Mocinho, Tate, Moreninho, Pequetita e Alice
que também eram seus colegas de colégio.
Houve uma pessoa que desempenhou papel marcante na sua
meninice. Foi o tio Jogo.
Muito tempo depois, dizia Juquinha referindo-se a esse grande
amigo.
Ele mereceu com muita honra
o título de amigo, não só meu mas de toda
a família.
Realmente aquele bondoso velhinho, fez jus a grande amizade
que o cercava, e por certo ao deixar a terra ganhou o reino
do céu.
Criado na casa dos nossos avós
maternos, na fazenda do Angu Seco, distrito de Cataguases,
Minas Gerais, veio para Maravilha após o nascimento de
Juquinha. Deixou sua querida terra com uma única
finalidade: ajudar mamãe, que era muito jovem, na
criação dos filhos, 03 quais amou corno se fossem
seus próprios netos. Foram doze anos dedicados a
nossa família. Papai o queria como só se quer
a um grande e leal amigo. Seu carinho e paciência faziam
com que todos o amassem.
No silêncio da noiïe, na
aconchegante cozinha da Vargem Alegre, as crianças se
reuniam em torno de uma crepitante fogueira, afim de ouvirem
as miraculosas histórias daquele velhinho admirável,
cujos cabelos embranquecidos davam-lhe a bela aparência
e doçura de um santo. Suas histórias eram simples,
como simples era sua alma. Todavia esclareciam e alegravam as
crianças, sendo todas elas voltadas para o bem, ensinando-lhes
a amar a natureza, o ser humano e sobretudo a serem tementes
a Deus. Uma de suas orações ensinada a Juquinha
em sua infância, ainda é rezada por pessoas da
família, inclusive por alguns de seus netos, cujos dizeres
passo a transcrever. |
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| Cruz do Senhor |
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Cruz do Senhor sobre minha testa Hóstia consagrada
sobre minha boca Chagas abertas, coração ferido,
Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, Entre mim e todos os perigos.
Passaram-se os anos...
Em 23 de agosto de 1901, dia em que Juquinha completava doze
anos, o destino implacável o separou do seu grande amigo,
o querido e doce Tio João, não para sempre, mas
por cinquenta e um anos, o que não a representa diante
da eternidade dos séculos.
Eu, creio no reencontro dos seres que se querem bem, ao retornarem
a nossa verdadeira pátria o mundo espiritual.
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| PRIMEIRA ESCOLA |
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Corria o ano de 1894. Tudo ia bem naquele lar abençoado
por Deus.
Juquinha já completara cinco anos. Nené três
em 27 de julho e Júlio dois anos completados em 21 de
abril.
Nossos pais davam tudo de si para vê-los felizes. Eram
os filhos o encantamento de suas vidas.
Contudo, mamãe em seu desvelado
carinho maternal, passou a preocupar-se com es estudos do
fiiho. Porém não tardou a encontrar a solução.
Procurou o professor Pinho Neto, que morava na casa da tia Chica,
no Goiabal, expondo-lhe suas pretensões, ou seja, contratá-lo
para lecionar Juquinha, o que foi prontamente aceito.
O professor propôs-se também a levar o menino na
garupa do seu cavalo à escola, ministrando-lhe aulas
em conjunto com os netos da Donana, na fazenda do Quilombo,
onde lecionava.
E assim estava mamãe todas as
manhas à porta com o "grande aluno" vestindo
terno de fustão branco com cabeção (*)
e punhos de bordado, calçando bolinhas de duraque (**).
Em pouco tempo ele se nivelara aos
melhores alunos da classe, proporcionando grande satisfação
ao professor, e principalmente aos nossos pais que muito
ss compraziam com o rápido progresso do filho.
Foram três anos de estudos com
um aproveitamento fabuloso.
Infelizmente seu período escolar foi interrompido em
razão do professor, aliás primo de mamãe,
ter regressado à sua terra, Cataguases MG.
E desse modo começou a luta dos nossos pais, pela instrução
do filho, que seria o primeiro de uma série de doze.
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| UMA GRANDE TRISTEZA ABALOU NOSSA CASA |
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Em 1895 um triste acontecimento empanou
a alegria de nossa casa. Morreu o irmãozinho Sebastião
que carinhosamente era chamado Inhozinho. Tinha apenas
sete meses, nasceu em onze de abril de 1895, seus padrinhos
foram os tios Jucá e Fia. Segundo os que o conheceram,
ele foi uma criança linda.
Mamãe nunca se esqueceu dele,
recordando passagens de sua tão curta vida! Como
lembrança, guardou por muitos anos, uma sempre-viva
(flor) que dias antes de falecer ele segurou acidentalmente,
entre os dedinhos, quando, no seu colo, passeava peio
jardim.
Talvez o destino quisesse provar através dessa flor,
que não existe morte, e que sempre vivas estão
também as almas, onde quer que Deus as coloque.
Em 1896 tudo confiou bastante difícil em nossa casa.
Papai trabalhava de sól a sól na lavoura ou no
engenho.
Mamãe fazia todo o serviço doméstico, para
que a vida se equilibrasse. Todavia nada puderam fazer quando
viram suas lavouras morrerem sob um sol causticante. Em consequência
desse acontecimento não conseguiram solver seus compromissos,
sendo o maior deles, liquidar a dívida acumulada durante
seis meses no comércio local.
Naquela época era comum esse tipo de transação.
Com o produto das vendas da safra, saldariam as dívidas.
A tristeza, mais uma vez, invadiu a nossa casa.
Mamãe tudo fazia para erguer
a coragem de papai, que só encontrava uma saída:
vender o sítio para pagar as dívidas, que apesar
de não serem tão grandes em dinheiro, eram em
aborrecimento e humilhação.
Insistia mamãe em não
efetuar a venda, e esperançosa dizia a papai que venceriam
as dificuldades no ano seguinte. Porém ele já
decidira vender a Vargem Alegre para o seu cunhado Joaquim Ferreira
da Costa, por apenas dezoito contos (18.000$000).
Nessa ocasião, o nosso avô paterno, Padrinho,
atingido por uma pneumonia dupla, veio falecer em poucos dias.
Papai que tinha por ele um amor intenso, muito sofreu com essa
separação, assim como mamãe que o queria
como se quer a um pai.
Vale lembrar tempos felizes, vividos
ali, onde a ventura, o amor, o bem-estar dos entes queridos,
era o lema da nossa família.
Entre muitas passagens relativas à
essa época, narradas por eles, estava sempre presente
a figura bondosa do nosso avô, o Padrinho. Recordavam
suas caminhadas durante as manhas, indo da Maravilha à
Vargem, afim de afastar da banqueta as folhas que impediam o
curso das águas, e que ainda hoje, apesar dos anos, correm
sob os velhos bambuzais, ali plantados pelas queridas mãos
de papai. Outras vezes o Padrinho chegava sem que ninguém
o pressentisse e se deitava no quarto dos hóspedes
e só retornava a Maravilha após o almoço,
que lhe era servido por mamãe com muito afago.
Padrinho possuía uma personalidade
marcante, uma linha de conduta impecável. Sob sua orientação,
conseguiu conduzir pêlos caminhos do bem, uma numerosa
família que Deus lhe confiou e da qual descendemos.
"Padrinho e Dindinha, da
Bondade, da esperança, da fé e do amor. Padrinho
e Dindinha a nossa Bíblia" palavras de Juquinha
no seu artigo de 25/4/1956, publicado no "Eco da Maravilha".
Mesmo em meio a tantas adversidades,
os sentimentos que moviam nossos pais, eram de compreensão
e obediência a Deus. Em dia algum blasfemaram. Apesar
dos revezes financeiros acrescentados às saudades infinitas
dos entes que se foram, não se detiveram olhando a estrada
já percorrida.
Mamãe com sua fé inabalável dizia:
Deus nos socorrerá.
E num esforço constante, seguindo os ensinamentos
de Padrinho e Dindinha, cheios de coragem e esperança,
prosseguiram pelos caminhos de luta que lhes estavam destinados
por vontade Superior!
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| EM NITERÓI |
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Vendida a Vargem Alegre, nossos pais
voltaram a morar no sobrado, uma vez que a avó Dindinha,
com a morte de Padrinho, passara a morar com as filhas que já
eram casadas. Papai com o desaparecimento do nosso avô,
já não se sentia tão preso à Maravilha,
decidindo mudar-se para Niterói, neste mesmo ano. Lá
tentaria o comércio e outras atividades. Foi principalmente
a educação dos filhos, preocupação
constante de sua vida, que o fez tomar tal decisão.
Reunindo o dinheiro que pôde,
comprou a Chácara do Morro do Céu
Cubango Niterói.
Em verdade era uma pequena fazenda, cuja sede impressionava
pela sua estrutura colonial em meio a um rico pomar. Era situada
no alto, vendo-se ao longe a beleza romântica da baía
de Guanabara.
Beneficiada por uma suave brisa vinda do mar, as tardes eram
muito agradáveis. Era enriquecida por duas fontes de
água cristalina, além de cafezal e pasto para
alguns animais.
Tinha todo conforto que na época se poderia desejar.
Mamãe sentiu-se a criatura mais feliz do mundo, vendo
que seus sonhos seriam realizados, ou seja dar aos seus filhos
uma sólida cultura.
Juquinha e Nené foram matriculados num excelente
externato, dirigido pelos professores, Sr. Ayres e Sra. Yaya,
sendo um dos melhores estabelecimentos do bairro.
As crianças Juquinha,
Nené, Júlio e Mário logo se adaptaram ao
novo lar. Aproveitavam as tardes ora brincando no pomar, ora
exercitando-se numa improvisada barra, entre dois velhos troncos.
Porém, em uma das vezes em que lá estiveram, Juquinha
inadvertidamente apoiou-se num galho seco, onde se enroscava
uma jararaca que em fração de segundos, desferiu-lhe
uma picada quase mortal. Em estado desesperador
foi levado para casa com forte hemorragia.
Tio João, apesar da gravidade do caso, não se
alterou. Pediu que tivessem calma e fé em Deus, afirmando
que o menino não necessitaria de socorros médicos.
E mais uma vez, ele afirmou, que, se todos tivessem fé
em Nosso Pai do Céu, ele o salvaria, medicando-o com
ervas, raízes e sobretudo com orações dirigidas
a Deus.
Diante de tamanha afirmação
de fé, nossos pais, confiantes na força Divina
e nas suas palavras, não hesitaram em entregar-lhe o
filho quase agonizante.
Juquinha por muitos dias esteve lutando contra a morte, mas
tio João, todo aquele tempo, permaneceu em constantes
orações, ao seu lado, conseguindo trazê-lo
à vida novamente.
Já recuperado, foi levado a
um médico que o examinou detidamente, constatando apenas
uma pequena anemia, sem nenhuma consequência. Todavia
ficou pasmado com sua cura mediante ervas, raízes e orações!...
Infelizmente papai que sempre fora
possuidor de uma boa fé ilimitada, havia adquirido uma
propriedade hipotecada. Assim sendo, perdeu a chácara,
bem como o dinheiro que por ela havia pago ao ladrão
que tão sordidamente o havia burlado. Soube-se mais tarde
que esse indivíduo havia feito essa mesma transação,
várias vezes com outras pessoas, simples e honestas como
fora nosso pai. Embora papai tivesse contratado um bom advogado,
Dr. Murtinho, nada se pôde fazer, uma vez que o vigarista
fugira para a França, não podendo portanto ser
localizado. '
Apesar de tantos prejuízos sofridos, Juquinha e Nené
muito aproveitaram no colégio do Sr. Ayres, o que para
nossos pais foi uma compensação
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| O BOM F!LHO A CASA TORNA |
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No final do ano de 1899 papai retornou
à Maravilha agora enriquecida a família com o
nascimento de mais uma filha, a querida Vevelha, nascida
em 6/6/1899. Mamãe sempre dizia que cada filho que recebia,
era mais uma jóia acrescentada ao seu tesouro, seus filhos.
Começaram o século com muita coragem.
Papai com o espírito forte que
possuía, muita disposição para trabalhar,
tendo ao seu lado mamãe para ajudá-lo, foi à
luta!...
Juquinha e Nené continuaram seus estudos na Maravilha
na escola municipal N. Sra. da Conceição. Em 1901
o professor João Brazil que a dirigia, transferiu-se
para Estrada Nova, passando as crianças a estudar no
colégio do Sr. João Aníbal, no arraial
de Macuco.
Desse grupo, além de Juquinha e Nené, participavam
os primos Tate, Mocinho, Vidinha, Pequenita e Alice.
Os extensos caminhos que percorriam
até o colégio, há muito desapareceram,
bem corno as crianças que os palmilharam felizes e despreocupadas.
Eram estradas estreitas, de chão,
ladeadas por frondosos arvoredos, em cujas sombras as crianças
descansavam fugindo da forte canícula em tempo de
verão. Todavia junto da velha figueira passavam apressados,
temendo um desagradávei encontro com o fabuloso
cachorro preto.
Era uma história antiga, contada por nossos ancestrais.
Debaixo daquela figueira .surgia inesperadamente um cão
enorme e preto, e que sumia também sem que se soubesse
para aonde fora.
Em compensação, os ipês
floridos ao longo da estrada traziam alegria e primavera, assim
como os sanandus,de cujas flores vermeihas a criançada
fazia divertidos apitos, originando dato seu nome vulgar
de árvore do assobio.
O pequeno e manso rio Macuco,
um pouco abaixo da poerenta estrada, corria sereno, através
da vegetação, trazendo àquele vale um agradável
frescor. Lembrando ainda os maricas perfumados que se inclinavam
sobre as águas, imprimindo mais beleza, a tão
rica paisagem.
Esse é um retraio, hoje já descolorido, da nossa
Maravilha do princípio do século, e que foi tão
amada pelos nossos antepassados.
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| ELE FOI UMA CRIANÇA DOCE |
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Juquinha com pouco tempo de
colégio conquistou a amizade dos colegas, principalmente
a simpatia do professor João Aníbal, que o distinguia
pela sua bela conduta e eficiência nos estudos. Aos 11
anos era tão responsável como só um adulto
o seria. Papai depositava no filho plena confiança, atribuindo-lhe,
às vezes, encargos de grande responsabilidade. As
entregas de aguardente e de álcool em Cantagalo e adjacências
ele as fazia auxiliado apenas por um empregado. Contudo, certa
vez viu-se numa difícil e perigosa situação.
Ao entregar os quintos e receber o pagamento dos mesmos, dois
sujeitos mal encarados, dela se aproximaram, perguntando-lhe
humildemente:
Senhozinho para onde vai?
Juquinha percebendo suas más
intenções, respondeu-lhes que o seu destino era
Sta. Rita, obviamente o oposto do lugar para onde iria. E os
bandidos, sem mais demora, para aquelas bandas se encaminharam,
enquanto ele e seu companheiro seguiram em direção
oposta, ou seja à Maravilha. Mas, mesmo assim por atalhos,
evitando de qualquer modo um desagradável encontro com
aqueles infelizes.
Essas peripécias causaram-lhes
grande atraso, chegando à casa peia madrugada, quando
papai já se preparava para ir ao encontro deles.
Depois do nascimento de Jair
em 22/5/1901, papai viajou para Minas, cidade de Oliveira, levando
uma grande partida de gado para negociar, ficando mamãe
com os seus filhos e tio João, o amigo de todas as horas.
Juquinha, embora sua pouca idade,
não se intimidou, passando a ajudar nos encargos da casa.
Sabendo que estava na época de preparara terra para novas
plantações, não exitou. orientado por tio
João e com um número reduzido de empregados, conseguiu
cultivar uma grande área.Papai ao regressar, ficou surpreendido
com o desempenho do filho como agricultor.
Foi com muito pesar e preocupação
que nosso pai empreendeu essa viagem, uma vez que não
teria condições de voltar antes de dois meses.
Entretanto prometeu à mamãe enviar-lhe cartas
de todos os lugares onde pernoitasse quando as condições
lhe permitissem.
A primeira notícia chegou à
nossa casa poucas horas após sua partida; papai aproveitou
como portador um amigo que encontrara em caminho e que se dirigia
à Maravilha. Era um bilhete tão saudoso e triste,
que não havia quem o lesse e não chorasse. E assim
foi remetendo cartas repassadas de saudades e preocupações
com mamãe e os seis filhinhos.
Felizmente tudo correu bem.
Papai regressou um pouco antes de completar os tão "infindáveis"
dois meses.
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| Juquinha TERMINA O CURSO PRIMÁRIO |
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Aos doze anos Juquinha terminou
o curso primário. Todavia continuava a estudar particularmente
com o professor Aníibal. Agora, a principal preocupação
da família era em contrar meios de dar continuidade aos
seus estudos, uma vez que só no Rio de Janeiro poderia
fazê-lo.
Zeca (José Cortes Júnior),
sobrinho e muito amigo dos nossos pais, que residia no Rio de
Janeiro, percebendo a situação afiïtiva que
os abatia, prontificou-se a ajudá-los no que pudesse.
E ao retornar ao Rio conseguiu um lugar para Juquinha
morar, que seria a casa da família Barroso, cujos filhos
eram seus alunos particulares. Ele teria apenas de colaborar
fazendo algumas compras e pequenas obrigações
caseiras. Zeca dar-lhe-ia aulas em conjunto com as crianças
da casa.
Papai e mamãe exultaram quando
souberam que não seriam interrompidos os estudos do seu
Yote. Todavia decorridos os primeiros momentos de alegria
foram dominados pelo sentimentalismo. Temiam que o filho com
apenas treze anos incompletos, sofresse muito, longe deles.
Corria perigo por ser muito jovem, vivendo só, numa cidade
grande. Mamãe chorando dizia:
Ele é a corda dos nossos corações.
Mas num grande esforço, conseguiram
reunir coragem, oferecendo a Deus o sacrifício dessa
separação.
Raciocinando com mais calma, concluíram
que sua ida era necessária para que adquirisse conhecimentos,
uma cultura sólida, podendo mais tarde orientar os irmãos
e a outros que a ele recorressem. |
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